Wednesday, 3 December 2014

Déjà vu

Antologia de contos mal escritos 
que ninguém nunca leu
 I. 

No desalinho triste das minhas emoções confusas...
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio
de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade
obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de
gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados,
inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como
velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no
desalinho triste das minhas sensações confusas. 
Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

Hoje encontrei um eco do meu passado. 19 anos se passaram. Nunca fomos amigas. Nunca trocamos mais que poucas palavras. Não tínhamos nada em comum a não ser alguns anos de diferença e o fato de dividirmos o mesmo sangue.

O primeiro encontro - ainda me lembro tão vivamente como se fosse ontem. O que me foi dito, o incomodo que senti, o desconforto de estar ali. Sera que ela sabe o mal que me causou? Porque o desamor gratuito? Por que? Por anos fiz-me essas perguntas ainda sem resposta. Ha momentos na vida que te mudam para sempre e esse foi um deles para mim. Nunca mais fui a mesma.

E o que veio depois disso…podia escrever-lhes um livro. Anos se passaram para ate eu aprender a apaziguar a minha ira. Reminiscências daquele fim-de-semana sombrio. 

Sei bem que e melhor ter lembranças boas mas guardei essa lembrança doida num canto da minha alma. O ultimo momento da menina que era ate aquele dia, ate aquele encontro. Guardei-a para nunca esquecer que o lobo-mau se veste de carneiro. E que o mundo e feito de gente assim também: suja e feia. 

Perdoar? Não.  Esquecer? E eu o fiz, ha muito tempo atras, não passei meus dias a desejar-la mal. Mas hoje quando a vi aquele sentimento, aquele mesmo sentimento de estar trancada no banheiro chorando e pedindo a Deus para ir embora, para sumir, desaparecer. Numa fração de segundos experimentei aquilo tudo. De novo. Dolorosamente. 

Tenho para mim que aquele foi o primeiro momento que deixei de ser criança. E no "desalinho triste das minhas sensações confusas" quero eu pensar acreditar que não a vi, que tudo foi so déjà vu.  

...in the sad disarray of my confused emotions...
A twilight sadness made of fatigue and false renunciations,
 a tedium of feeling anything at all,
 a pain as of a chocked sob or a discovered truth...
A landscape of abdications unfolds in my oblivious soul:
walkways lined by abandoned gestures, 
high flower beds of dreams that weren't even well dreamed,
 incongruities  like hedges separating deserted paths, 
suppositions like old pools whose fountains are broken. 
It all gets entangled and equality looms
 in the sad disarray of my confused sensations
Book of Disquiet  by Fernando Pessoa

1 comment:

  1. São experiências como essa que nos fazem nos conhecer melhor, de certa forma agradeço por essas pessoas sujas e feias entrarem na minha vida e me marcarem de alguma forma, pra sempre.
    Espero que você esteja bem, e que essa experiência só tenha te fortalecido.

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